"Se recomienda la limpieza a
cada seis meses", sugere, em espanhol, o aviso estampado na cisterna em
frente à casa de Jéssica Barbosa da Silva, 21 anos, que vive com a família em
Surubim, município de 60 mil habitantes do agreste pernambucano. Nos últimos dois
meses, a cidade começou a receber 1.300 cisternas de polietileno, doadas pelo
Ministério da Integração Nacional por intermédio do programa Água para Todos.
Diferentemente da maioria dos que têm cisterna, Jéssica não mora na zona rural.
Seu bairro, o Gancho do Galo, é parcialmente atendido por água encanada, mas a
moça não está entre os contemplados. Sem espaço nos fundos do imóvel, teve que
instalar a cisterna em frente à janela da sala. Precisou quebrar a calçada para
acomodar o trambolho cinza de 2,3 metros de altura por 3,2 metros de diâmetro e
capacidade para 16 mil litros.
Dobro do preço
A obra começou há três semanas,
mas ainda não terminou. Jéssica continua dependendo de baldes e vizinhos para
beber água, cozinhar, tomar banho. Ainda assim, está satisfeita com a chegada
da cisterna, cujo modelo é visto com desconfiança por entidades ligadas ao
Semiárido e até por beneficiários. "É melhor do que nada. Pelo menos vai
ter alguma água", diz Jéssica.
A presidente do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Surubim, Ivete Ramos Pereira, disse ter sido procurada
em março por gente do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs),
para ajudar no cadastramento de potenciais beneficiários.
Conta que muitas
famílias estavam desconfiadas das "cisternas de plástico", por conta
de boatos acerca da resistência ao calor nordestino. "Teve gente dizendo
que não queria, mas com o tempo os ânimos se acalmaram", diz. Em janeiro
vieram à tona casos de cisternas de polietileno que se deformaram com o calor.
Choveram críticas em relação ao custo, perto de R$ 5 mil, o dobro do preço da
cisterna de alvenaria comum na região.
Dificuldades
As primeiras cisternas plásticas
foram adquiridas em 2011 pelo ministério, via Companhia de Desenvolvimento do
Vale do São Francisco, em licitação que teve como única concorrente a mexicana
Dalka - o que explica as instruções em espanhol no equipamento. A empresa
montou quatro fábricas para produção das cisternas, a maior em Petrolina (PE),
cidade do ministro da Integração, Fernando Bezerra. Entre as vantagens do
equipamento de polietileno estaria o menor tempo de instalação, estimado em
dois dias. Mas não é o que se vê na prática.
O agricultor José Cândido Barbosa,
morador do Sítio Lério, área rural de Surubim, estava orgulhoso de sua cisterna
nova, instalada há um mês, mas quando solicitado a tirar água, se recusou.
"Não está funcionando. Tem água, mas não consigo tirar", disse,
desconfiado de algo na bomba. A dona de casa Iolene Maria dos Santos, da
comunidade Tabu, também aguarda visita de técnicos do Dnocs para reparos em um
vazamento. Ela já tem água, que usa para beber e cozinhar.
Desconfiança
Todos os beneficiários visitados
ouviram más notícias acerca do equipamento plástico, mas ninguém manifestou
descontentamento com a instalação. "Estamos felizes, já sofremos muito por
causa de água, mas vamos ver como vai ser quando o calor vier forte",
disse o lavrador José Francisco da Silva. De acordo com ele, há casos entre as
cisternas de alvenaria que, com o tempo, começaram a apresentar vazamentos.
"Essa de alvenaria é como uma casa. Se não for bem feita, começa a
desmoronar com o tempo", diz.
Pelo critério do Água para Todos, quem já
tem cisterna de alvenaria, mesmo com defeito, não pode receber a de
polietileno. "Minha vizinha teve que destruir a antiga pra ter direito a
uma nova", conta Silva. De acordo com a presidente do sindicato rural,
muitas famílias de Surubim preferem a cisterna plástica à água encanada. Isso
porque a água que abastece as torneiras da região, vinda da Barragem do Jucazinho,
é salobra e cheira mal, mas a Companhia Pernambucana de Saneamento garante que
a água é própria para consumo. "Tenho certeza que prejudicará a saúde do
povo no futuro", alerta Ivete.
Fonte: Valor - Capa
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